O Outro Lado do Vidro
O ar de São Paulo ao final da tarde de quinta-feira xadrezava entre o
peso da umidade e a fumaça cinzenta dos ônibus. No pátio do Colégio Estadual
Conselheiro, o eco das risadas e o bater distante de portões de ferro marcam o
fim de mais um dia de aula. Beatriz mantinha-se encostada à mureta de cimento
do pátio, ajustando com dedos trêmulos as alças da mochila gasta. Era sua
terceira semana naquela escola e, até onde conseguia medir, sua existência
continuava perfeitamente invisível para todos — exceto quando se tornava o alvo
conveniente de piadas de corredor.
— Se você amarelar, Beatriz, nem precisa tentar sentar com a gente na
aula de biologia amanhã — disse Camilo, cruzando os braços com um sorriso
torto, sustentado pela aprovação velada das duas garotas ao seu lado. — É
simples: subiu o terceiro andar, três descargas no banheiro do fundo, aciona a
torneira de bronze e fala o nome dela três vezes. Se trouxer uma foto do
espelho trincado do banheiro abandonado, a gente acredita.
Beatriz engoliu em seco. O terceiro andar do prédio principal da escola
fora desativado décadas atrás. Diziam as mentes mais pragmáticas da direção que
as instalações hidráulicas antigas ameaçavam vazamentos para os laboratórios do
andar inferior; diziam os alunos, no entanto, que aquele espaço guardava a
memória do período em que a estrutura servira de casarão residencial no século
XIX.
Sem responder uma única palavra para não transparecer a voz trêmula,
Beatriz virou as costas e caminhou em direção à escadaria interna. O som das
risadas abafadas do grupo murchou à medida que os degraus de granilita cinzenta
a levavam para cima. A cada lance de escada, o barulho do tráfego urbano da
avenida e o vozerio do pátio diminuíam, substituídos por uma densa camada de
silêncio.
A Subida e a Penumbra
O terceiro andar cheirava a poeira acumulada, madeira compensada seca e
papel mofado. Uma fita zebrada amarelada pelo tempo pendia frouxa na entrada do
corredor, rasgada ao meio. Beatriz passou por baixo dela com cuidado, os
sapatos de sola de borracha produzindo um som sibilante contra o piso
desgastado.
O banheiro feminino ficava ao fundo do corredor longo e estreito. As
janelas altas de ferro fundido deixavam entrar uma luz alaranjada e moribunda
de fim de tarde, que desenhava sombras recortadas ao longo das paredes cobertas
por descascados de tinta antiga. A porta do banheiro — uma peça maciça de
peroba-rosa com uma placa metálica onde a palavra Feminino mal podia ser lida —
estava entreaberta.
Beatriz empurrou a madeira pesada. O rangido das dobradiças velhas
pareceu perfurar o ar como um grito rasgado. O ambiente interno era
consideravelmente mais frio do que o corredor. O revestimento de azulejos
brancos octogonais, encardidos e manchados por infiltrações secas, cobria as
paredes até a metade da altura. Ao centro, uma fileira de pias de louça branca
assentava-se sobre bancadas de granito escuro, e acima delas repousava um
grande espelho emoldurado em madeira, cuja superfície trazia uma trinca
profunda na diagonal, cortando o vidro de ponta a ponta.
— É só um banheiro velho — sussurrou para si mesma, embora sua voz tenha
soado fina, sem sustentação.
Caminhou até as cabines. As portas de madeira verde-oliva exibiam riscos
velhos de caneta e entalhes feitos com estilete. Beatriz dirigiu-se à última
cabine. A descarga ali não era do tipo botão embutido na parede, mas o antigo
sistema de caixa alta de ferro com corrente metálica pendente.
O coração da garota martelava contra as costelas. Para provar a si mesma
que o medo era apenas uma construção da ignorância popular, ela iniciou a
sequência:
Puxou a corrente da descarga. Um urro hidráulico ecoou pelo encanamento
interno da parede, acompanhado pelo som forte de água fervilhante descendo pela
louça amarelada. Ela esperou o reservatório encher lentamente e puxou uma
segunda vez. O som da água parecia ressoar mais grave, quase cavado. Na terceira
vez que a corrente foi acionada, o ar dentro da cabine pareceu perder vários
graus de temperatura de um único golpe. A respiração de Beatriz saiu na forma
de uma fumaça branca e diáfana.
Saindo da cabine, ela caminhou até a primeira pia. A torneira de bronze
manchado de azinhavre oferecia resistência, mas cedeu ao aperto forte de seus
dedos. A água não jorrou limpa; saiu em um jato marrom-avermelhado, com cheiro
forte de ferro e terra molhada, antes de se estabilizar num fio fino e translúcido.
Beatriz levantou os olhos para a sua própria imagem no espelho trincado.
Seu rosto parecia pálido sob a penumbra alaranjada que agora cedia lugar a um
tom cinzento. Ela respirou fundo, apoiou os dedos na borda de granito gelado e
pronunciou em voz baixa, porém clara:
— Maria Augusta... Maria Augusta... Maria
Augusta...
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Nem o som dos carros na avenida,
nem o pingo da torneira de bronze. Uma quietude pressurizada tomou conta do
recinto, do tipo que faz os ouvidos zunirem com a ausência total de frequência
sonora.
Beatriz sorriu com amargura. "Bobagem", pensou, puxando o
celular do bolso do casaco para fotografar a trinca no espelho e encerrar
aquela farsa. Contudo, antes que pudesse desbloquear a tela, o som seco de uma
tranca de madeira deslizando ecoou atrás dela.
A porta de entrada do banheiro havia se fechado completamente.
A garota girou nos calcanhares e correu até a porta. Puxou a maçaneta de
latão. O metal estava congelante, e a porta não se moveu um milímetro, como se
tivesse sido soldada ao batente. O pânico subiu-lhe pela garganta em forma de
um aperto sufocante.
— Tem alguém aí? — gritou, esmurrando a madeira maciça. — A porta
travou! Tem alguém na escola? — O som de seus golpes morria na própria madeira,
sem propagação.
Um vapor denso e frio começou a emergir do ralo do piso e das pias,
subindo em espirais suaves que cobriram a superfície do espelho central.
Beatriz virou-se devagar, as costas prensadas contra a porta trancada. O vidro
do espelho estava completamente embaçado pela névoa fria, exceto por um ponto
ao centro.
Ali, no meio do vapor, algo invisível parecia estar limpando a
superfície por dentro. Marcas de pequenos dedos delicados desenhavam um círculo
limpo no vidro. E através daquele círculo, o que Beatriz viu não era o reflexo
do banheiro velho com azulejos encardidos.
O espelho mostrava um quarto amplo e suntuoso, iluminado pela luz
amarelada de castiçais de prata. Paredes cobertas por papel de parede de
damasco azul e dourado, cortinas pesadas de veludo escuro e uma grande cama de
dossel. E junto ao espelho, do outro lado do vidro, estava uma jovem.
Ela aparentava ter pouco mais de dezesseis anos. Usava um vestido de
alta costura do século XIX, de cetim marfim com rendas trabalhadas no decote e
nos punhos. Seus cabelos loiros estavam presos em um penteado elaborado, embora
algumas mechas caíssem soltas sobre os ombros pálidos. Não havia deformidade em
seu rosto, nem sangramentos grotescos ou feições animalescas como as histórias
de corredor contavam. Sua pele era alva como a neve de inverno, e seus olhos
grandes e escuros carregavam uma melancolia tão profunda que fazia o peito de
Beatriz doer.
A jovem loira aproximou-se da superfície interna do espelho. Ela não
flutuava; seus passos pareciam firmes sobre o carpete aveludado do quarto
vitoriano. Ela ergueu a mão direita e encostou as pontas dos dedos no vidro,
exatamente sobre a trinca que dividia a imagem.
Onde a pele da garota do espelho tocava a superfície, cristas de geada
ramificavam-se rapidamente pelo vidro, estalando como galhos secos se
quebrando.
— Por que vocês sempre chamam? — A voz não veio através do ar, mas
ressoou diretamente dentro da cabeça de Beatriz, suave, grave e saturada de um
cansaço secular. — Vocês vêm até aqui buscando um monstro para preencher o
vazio das suas tardes... mas nunca querem ouvir o peso de ficar para trás.
Beatriz sentiu as pernas fraquejarem. Tentou falar, mas sua língua
parecia colada ao céu da boca.
— Me tiraram da minha casa antes que eu soubesse quem eu era — continuou
a voz no reflexo, enquanto a jovem loira inclinava a cabeça ligeiramente,
observando Beatriz com uma curiosidade triste. — Me prenderam em um casamento
que não escolhi, me trouxeram de volta em uma caixa de vidro quando meu corpo
esfriou, e agora me mantêm viva em histórias contadas por crianças que têm medo
do escuro. Você também se sente trancada, não se sente, Beatriz?
O conhecimento do seu nome fez com que uma lágrima gelada escorresse pelo
rosto da garota viva.
— Eu... eu só queria ir embora — conseguiu articular Beatriz, com a voz
embargada pelo choro de pânico e empatia incompreensível.
A garota do espelho olhou para a própria mão espalmada contra o vidro. A
trinca profunda parecia pulsar com uma luz azulada e tênue.
— Nós duas queremos ir embora — disse o espírito. — Mas a lenda exige
que alguém continue guardando o lado de lá do espelho.
A jovem pálida começou a pressionar o vidro. A superfície rígida do
espelho cedeu como se fosse uma película de água tensionada, e a ponta de seus
dedos gelados atravessou o limite físico, surgindo no ar do banheiro. Um frio
glacial emanou daquela mão estendida.
O choque da realidade rompeu o torpor de Beatriz. O instinto mais
primário de preservação tomou conta de seus músculos. Em um arranco
desesperado, ela não tentou fugir da mão, mas atirou todo o peso do seu corpo
contra a maçaneta da porta de entrada, girando-a com as duas mãos cobertas
pelas mangas da jaqueta.
Um estalo seco ecoou. A tranca cedeu. A porta abriu-se de golpe para
fora, e Beatriz despencou no corredor do terceiro andar, caindo de joelhos
sobre a madeira dura do piso.
Sem olhar para trás, impulsionou-se para cima e correu. Seus pés mal
tocavam os degraus de granilita enquanto ela descia as escadas em disparada,
atropelando o ar denso da noite que caía sobre o prédio da escola. Ela cruzou o
portão principal como uma sombra, saindo para a rua movimentada sob a chuva fina
que finalmente começava a desabar sobre a cidade.
Na manhã seguinte, a tempestade da madrugada havia deixado o ar limpo e
frio. Beatriz caminhava pelo pátio do colégio com passos lentos, a mochila
ajustada firmemente às costas. Junto ao canteiro central, Camilo e o pequeno
grupo de colegas conversavam alto. Ao verem a garota se aproximar, as risadas
cessaram.
— E aí, novata? — debochou Camilo, embora sua expressão trouxesse uma
ponta de desapontamento por vê-la inteira. — Amarelou ontem? Não vimos foto
nenhuma no grupo.
Beatriz parou diante dele. Olhou fixamente nos olhos do garoto, sem a
timidez das semanas anteriores. Seu rosto trazia uma calma estranha, quase
solene.
— O espelho continua lá — respondeu ela, com a voz serena e baixa. — Mas
se eu fosse você, Camilo, não jogava com coisas que foram esquecidas por tanto
tempo.
Camilo tentou responder com alguma piada, mas a firmeza no olhar de
Beatriz fez com que ele apenas desse um passo involuntário para trás, desviando
o olhar.
Beatriz virou-se e caminhou em direção ao banheiro do térreo para lavar
as mãos antes do início da primeira aula. Ao entrar na sala higienizada e
iluminada por luzes brancas e fortes, aproximou-se da pia. Abriu a torneira de
inox e deixou a água corrente lavar a poeira das suas palmas.
Ao erguer os olhos para o espelho comum do térreo, o coração de Beatriz
deu um salto sutil, mas a garota não gritou. No colarinho escuro de seu casaco
de lã, repousava um único e longo fio de cabelo loiro platinado. E ao encarar
seu próprio reflexo, Beatriz sentiu, no exato ponto onde o cabelo tocava sua
pele, um sopro inconfundível de ar congelante, acompanhado por um sussurro que
apenas ela podia ouvir:
— Até breve, Beatriz...
