A névoa fria daquela noite de julho não parecia vir do mar, mas sim emanar
do próprio asfalto. Bia ajustou o casaco sobre os ombros, sentindo o ar gelado
contrastar de forma quase irreal com a memória do calor sufocante do Rio de
Janeiro. Nascida no Sul, ela estava habituada a temperaturas baixas, mas aquele
frio do Centro da cidade, denso e úmido, trazia uma estranheza que lhe
arrepiava a espinha.
Com seus 1,60 m de altura, passos rápidos e pernas pesadas pelo cansaço do
escritório, Bia apressava a caminhada. Os longos cabelos loiros, que costumavam
balançar soltos até a cintura, estavam presos em um coque apressado, e os olhos
castanho-claros mantinham-se fixos alguns metros à frente, evitando encarar os
cantos escuros das avenidas desertas. Trabalhar até mais tarde no escritório
era algo raro, mas inevitável naquele dia. O problema não era a hora; era o
caminho.
Para pegar o transporte de volta para casa, era impossível não passar em
frente à Igreja de Nossa Senhora da Candelária.
Mesmo sob a luz amarelada dos postes públicos, a construção de pedra escura
se erguia como uma silhueta gigantesca e opressiva. Todas as noites, passar por
ali já exigia de Bia um esforço mental contínuo. A memória da tragédia ocorrida
naquelas escadarias na década de 90 parecia gravada na própria estrutura do
lugar. Era inevitável não sentir calafrios. Quase podia ouvir o eco distante do
horror e, em muitas noites, a impressão visual de vultos rápidos na periferia
do seu olhar a fazia apertar o passo, o coração disparado contra o peito.
Naquela noite, porém, a névoa cobria os degraus de pedra com um manto
espesso.
Quando Bia se aproximou da fachada, o silêncio da cidade pareceu absoluto,
como se o trânsito da Rio Branco tivesse sido completamente apagado. Ela baixou
a cabeça e tentou focar no som de seus próprios sapatos contra o calçamento,
mas um som diferente a fez congelar: o roçar leve de tecidos e passos múltiplos
descendo a escadaria.
Bia ergueu os olhos.
A névoa na entrada da igreja não era branca; tinha um tom cinzento e
doentio. No meio dela, sombras começaram a ganhar contornos definidos. Não eram
vultos passageiros. Eram figuras humanas.
Eram jovens, quase crianças, com roupas puídas, encharcadas de uma
substância escura que brilhava sob a luz fraca. Seus rostos eram pálidos, de
uma tez cinzenta e gélida, com olhos fundos que pareciam absorver a pouca
luminosidade ao redor. O ar ao entorno deles cheirava a ferro e terra molhada.
O terror travou os joelhos de Bia. Ela tentou recuar, mas seus pés pareciam
colados ao chão.
A figura da frente — um garoto franzino, de olhos cavados e a pele marcada
por ferimentos abertos — deu um passo em direção a ela. Ele não caminhava
normalmente; seus movimentos eram travados, como se estivesse preso ao exato
momento em que sua vida fora tirada. Ele ergueu uma mão trêmula, os dedos
pálidos estendidos na direção de Bia.
"Ajuda...", a voz não veio como um som alto, mas como um sussurro
ecoado diretamente dentro da cabeça dela, frio e arranhado. "Eles ainda
estão vindo... nos tira daqui..."
Atrás dele, outras sombras começaram a descer a escadaria. Seus rostos
estavam congelados em expressões de pavor e dor. Os corpos pareciam
distorcidos, e a névoa ao redor deles começou a se mover rapidamente, como se
ganhasse vida própria. As vozes se multiplicaram, um coro de sussurros
desordenados e desesperados que ressoavam no crânio de Bia, sobrecarregando
seus sentidos.
"Olha para nós..."
"Não deixa eles voltarem..."
"Está frio..."
Uma das figuras, com o rosto parcialmente coberto por sombras disformes,
deu um salto à frente com uma velocidade sobrenatural. As mãos gélidas se
estenderam para alcançar o casaco de Bia.
O choque do ar congelante que precedeu o toque do fantasma finalmente
quebrou a paralisia do pânico.
Bia soltou um grito rasgado, deu um passo abrupto para trás e tropeçou no
meio-fio. Conseguiu se equilibrar por um triz, girou o corpo e desatou a correr
com todas as forças que restavam em seu corpo.
Atrás dela, o som de passos múltiplos e o eco dos sussurros pareciam
persegui-la de perto, cortando o ar da noite. Ela não olhou para trás. Correu
até que as solas dos seus sapatos estalassem alto no asfalto da avenida
principal, onde o som distante de um ônibus se aproximando finalmente quebrou o
feitiço daquele silêncio mortal.
Ao dobrar a esquina, a névoa começou a se dissipar rapidamente. Bia parou,
apoiando as mãos nos joelhos, tentando recuperar o fôlego enquanto o peito
subia e descia descontroladamente. Quando olhou de relance para trás, a praça
da Candelária estava novamente vazia, envolta apenas pela iluminação alaranjada
dos postes. Mas no fundo de seus olhos castanhos, a imagem das mãos estendidas
na névoa permanecia perfeitamente nítida.

Nenhum comentário:
Postar um comentário