quinta-feira, 13 de agosto de 2026

 


A névoa fria daquela noite de julho não parecia vir do mar, mas sim emanar do próprio asfalto. Bia ajustou o casaco sobre os ombros, sentindo o ar gelado contrastar de forma quase irreal com a memória do calor sufocante do Rio de Janeiro. Nascida no Sul, ela estava habituada a temperaturas baixas, mas aquele frio do Centro da cidade, denso e úmido, trazia uma estranheza que lhe arrepiava a espinha.

​Com seus 1,60 m de altura, passos rápidos e pernas pesadas pelo cansaço do escritório, Bia apressava a caminhada. Os longos cabelos loiros, que costumavam balançar soltos até a cintura, estavam presos em um coque apressado, e os olhos castanho-claros mantinham-se fixos alguns metros à frente, evitando encarar os cantos escuros das avenidas desertas. Trabalhar até mais tarde no escritório era algo raro, mas inevitável naquele dia. O problema não era a hora; era o caminho.

​Para pegar o transporte de volta para casa, era impossível não passar em frente à Igreja de Nossa Senhora da Candelária.

​Mesmo sob a luz amarelada dos postes públicos, a construção de pedra escura se erguia como uma silhueta gigantesca e opressiva. Todas as noites, passar por ali já exigia de Bia um esforço mental contínuo. A memória da tragédia ocorrida naquelas escadarias na década de 90 parecia gravada na própria estrutura do lugar. Era inevitável não sentir calafrios. Quase podia ouvir o eco distante do horror e, em muitas noites, a impressão visual de vultos rápidos na periferia do seu olhar a fazia apertar o passo, o coração disparado contra o peito.

​Naquela noite, porém, a névoa cobria os degraus de pedra com um manto espesso.

​Quando Bia se aproximou da fachada, o silêncio da cidade pareceu absoluto, como se o trânsito da Rio Branco tivesse sido completamente apagado. Ela baixou a cabeça e tentou focar no som de seus próprios sapatos contra o calçamento, mas um som diferente a fez congelar: o roçar leve de tecidos e passos múltiplos descendo a escadaria.

​Bia ergueu os olhos.

​A névoa na entrada da igreja não era branca; tinha um tom cinzento e doentio. No meio dela, sombras começaram a ganhar contornos definidos. Não eram vultos passageiros. Eram figuras humanas.

​Eram jovens, quase crianças, com roupas puídas, encharcadas de uma substância escura que brilhava sob a luz fraca. Seus rostos eram pálidos, de uma tez cinzenta e gélida, com olhos fundos que pareciam absorver a pouca luminosidade ao redor. O ar ao entorno deles cheirava a ferro e terra molhada.

​O terror travou os joelhos de Bia. Ela tentou recuar, mas seus pés pareciam colados ao chão.

​A figura da frente — um garoto franzino, de olhos cavados e a pele marcada por ferimentos abertos — deu um passo em direção a ela. Ele não caminhava normalmente; seus movimentos eram travados, como se estivesse preso ao exato momento em que sua vida fora tirada. Ele ergueu uma mão trêmula, os dedos pálidos estendidos na direção de Bia.

​"Ajuda...", a voz não veio como um som alto, mas como um sussurro ecoado diretamente dentro da cabeça dela, frio e arranhado. "Eles ainda estão vindo... nos tira daqui..."

​Atrás dele, outras sombras começaram a descer a escadaria. Seus rostos estavam congelados em expressões de pavor e dor. Os corpos pareciam distorcidos, e a névoa ao redor deles começou a se mover rapidamente, como se ganhasse vida própria. As vozes se multiplicaram, um coro de sussurros desordenados e desesperados que ressoavam no crânio de Bia, sobrecarregando seus sentidos.

​"Olha para nós..."

"Não deixa eles voltarem..."

"Está frio..."

​Uma das figuras, com o rosto parcialmente coberto por sombras disformes, deu um salto à frente com uma velocidade sobrenatural. As mãos gélidas se estenderam para alcançar o casaco de Bia.

​O choque do ar congelante que precedeu o toque do fantasma finalmente quebrou a paralisia do pânico.

​Bia soltou um grito rasgado, deu um passo abrupto para trás e tropeçou no meio-fio. Conseguiu se equilibrar por um triz, girou o corpo e desatou a correr com todas as forças que restavam em seu corpo.

​Atrás dela, o som de passos múltiplos e o eco dos sussurros pareciam persegui-la de perto, cortando o ar da noite. Ela não olhou para trás. Correu até que as solas dos seus sapatos estalassem alto no asfalto da avenida principal, onde o som distante de um ônibus se aproximando finalmente quebrou o feitiço daquele silêncio mortal.

​Ao dobrar a esquina, a névoa começou a se dissipar rapidamente. Bia parou, apoiando as mãos nos joelhos, tentando recuperar o fôlego enquanto o peito subia e descia descontroladamente. Quando olhou de relance para trás, a praça da Candelária estava novamente vazia, envolta apenas pela iluminação alaranjada dos postes. Mas no fundo de seus olhos castanhos, a imagem das mãos estendidas na névoa permanecia perfeitamente nítida.

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