domingo, 16 de agosto de 2026

 


A névoa naquelas bandas do interior não baixava como em qualquer outro lugar; ela escorria da mata fechada como uma fumaça fria, pesada, que cobria as valas da estrada de terra e engolia as estacas de madeira da cerca. Nas noites de quinta para sexta-feira, o silêncio que antecedia o nevoeiro era absoluto. Nem os sapos coaxavam no brejo, nem as corujas se arriscavam a rasgar os ares. Os velhos da vila sabiam exatamente o que isso significava. Trancavam as portas com travessas de maçaranduba, puxavam as cortinas mais espessas e acendiam uma vela de cera de abelha aos pés do santo, rezando baixo para que o tempo passasse rápido.

Bento, no entanto, nunca fora homem de simpatias ou rezas. Voltou para a fazenda da família para fechar o inventário do pai e vendê-la o quanto antes ao agronegócio local. Quando Dona Joana, a antiga cozinheira que ainda cuidava do casarão, o avisou antes de ir embora — "Se ouvir cascos na terra seca, seu Bento, não olhe. Não chegue perto da fresta da janela. Tape os ouvidos e ajoelhe-se" —, ele apenas sorriu com um desdém cansado. Para ele, tudo aquilo não passava de superstição de gente ignorante, alimentada por noites longas sem eletricidade.

Por volta da meia-noite, a iluminação da casa falhou. As lâmpadas amarelas piscaram duas vezes e apagaram-se de vez, deixando o casarão mergulhado em uma escuridão densa, quebrada apenas pela luz fraca do luar que tentava atravessar a névoa fora de casa. Bento acendeu um lampião a gás e sentou-se na poltrona da sala de estar, abrindo a fivela da pasta de documentos.

Foi quando o som começou.

Primeiro, veio o cheiro. Não era cheiro de mato queimado ou de terra molhada, mas um fedor insuportável de enxofre misturado a couro esturricado e carne em decomposição. O ar no interior da sala ficou subitamente seco e quente, pesando nos pulmões de Bento, que tossiu, cobrindo o nariz com a manga da camisa.

Logo em seguida, o silêncio da noite foi estraçalhado por um galope distante. Tóc... sóc... tóc... sóc... O impacto de cascos pesados e metálicos contra a terra seca fazia as vigas de madeira do chão tremerem suavemente. Bento estancou. O som não vinha de um cavalo comum; o ritmo era furioso, descontrolado, intercalado por um ruído estranho, cavernoso, que parecia o borbulhar de líquido fervendo dentro de uma caldeira.

Movido por uma curiosidade arrogante, Bento levantou-se devagar. Caminhou em direção à grande janela de madeira que dava para a estrada de acesso. Chegou o rosto perto da fresta das tábuas, disposto a provar a si mesmo que era apenas algum animal desgarrado ou um vizinho embriagado.

A névoa do lado de fora estava impregnada por um clarão alaranjado e doentio. A criatura surgiu no topo do declive da estrada, e o coração de Bento congelou no peito.

Não era uma figura folclórica de livro infantil. Era uma abominação de pesadelo. O corpo equino era colossal, com os músculos retorcidos sob uma pele negra e chamuscada, onde veias grossas pulsavam como se conduzissem brasa líquida em vez de sangue. Ferros em brasa pareciam cravados nas patas, soltando faíscas a cada passada violenta que rasgava o solo. E no lugar onde deveria estar o pescoço e a cabeça do animal, erguia-se uma labareda colossal, azul e alaranjada, que crepitava com fúria.

A chama jorrava rajadas de fagulhas que queimavam a vegetação rasteira. Mas o que fez Bento dar dois passos para trás, paralisado de pavor, foi o som que saía daquela coluna de fogo. Não era um relincho. Era um lamento humano. O grito abafado, agudíssimo e desesperado de uma mulher sendo queimada viva, multiplicado em mil ecos sufocados pelo fogo.

Bento tentou afastar-se da janela, mas seus pés pareciam colados ao assoalho. A criatura parou subitamente no portão de entrada da propriedade. O calor irradiado por ela era tão intenso que a tinta das tábuas da janela começou a estalar e fazer bolhas. Os vidros das janelas superiores trincaram sob a variação brusca de temperatura.

A Mula virou o pescoço de fogo diretamente para a fachada da casa. Ela sabia que estava sendo observada.

Com um urro de puro ódio que fez os ouvidos de Bento sangrarem, a criatura disparou contra o casarão. O impacto das patas dianteiras contra a porta principal fez a madeira espessa rachar ao meio. Fagulhas voaram pela sala, acendendo o tapete e os cortinados. O ar dentro da casa tornou-se irrespirável, tomado pela fumaça sufocante de enxofre e fuligem.

Tomado pelo instinto primário de sobrevivência, Bento tropeçou na poltrona e correu em direção ao corredor dos quartos, tentando alcançar o alçapão que levava ao porão de pedra. Atrás dele, o som de madeira se despedaçando anunciou a entrada do monstro. O calor na sala era o de uma fornalha aberta; a madeira do teto estalava, prestes a ruir.

Bento levantou a tampa do alçapão e despencou na escuridão do porão, batendo a porta de madeira sobre a cabeça e travando-a com o ferrolho interno. Encolheu-se no canto mais escuro, entre barris velhos, cobrindo a boca para conter os soluços de pavor.

Acima dele, o assoalho rangia violentamente sob o peso monstruoso. O lamento humano envolto em chamas ressoava por toda a casa, fazendo as pedras das paredes do porão vibrarem. Bento sentiu o teto de madeira acima de si esquentar rapidamente. Gotas de resina fervente começaram a pingar das tábuas do teto, queimando sua pele onde tocavam.

Ele fechou os olhos, apertando as mãos contra os ouvidos enquanto o som dos cascos parava exatamente acima da tampa do alçapão. O cheiro de carne queimada tornou-se insuportável. Uma luz azulada começou a escorrer pelas frestas da madeira da tampa.

O lamento de fogo cessou por um segundo. E, no silêncio que se seguiu, Bento ouviu uma voz feminina, rouca e queimada, sussurrar através da fresta do alçapão, a milímetros de seu ouvido:

Eu avisei para não olhar...

Quando a manhã finalmente trouxe uma luz cinzenta e fria sobre o vale, os vizinhos da vila reuniram-se na entrada da fazenda. A casa estava em ruínas, com o interior completamente carbonizado por um incêndio inexplicável que não havia consumido as árvores ao redor.

No chão da sala, a tampa do porão fora transformada em cinzas. Ninguém encontrou os restos de Bento. A única coisa que sobrou no local foram marcas profundas de ferraduras gravadas em brasa sobre o piso de pedra e, cravado no silêncio daquela quinta-feira seguinte, o eco de um novo lamento masculino que agora acompanhava a névoa ao anoitecer.

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